Portanto estou de acordo com o que diz pacheco pereira mas para se entender a gente há que contar a estória com principio meio e fim e não apenas retirar-lhe os detalhes que podem ajudar-nos a um determinado tipo de raciocinio.
Posto isto vamos ao que interessa.
Portugal ao tempo de eça de queiróz e seu amigo camilo castelo branco, outro denunciador do que eram os tempos com sabor a monarquia já um bocadinho relapsa era um país com uma carga de injustiças sociais de bradar aos céus. A monarquia , depois de séculos de bom viver por conta do trabalho escravo do povo e das aventuras maritimas que foram por uns bem usadas e por outros desperdiçadas , afundava-se num mar de vicíos trazidos pela despreocupada aristocracia .
Mais empenhadas em bailaricos e modas que em bem organizar terras e tempo , desperdiçando preciosos recursos em caçadas e encontros amorosos as mais das vezes sórdidos, do que em bem tratar do povo, que entretanto fazia ajoujar na miséria e na ignorância, para não me adiantar noutras áreas em que o jogo de poder e maus tratos submetia todos quantos não pertencessem á extraordinária elite essa aristocracia empestava tudo por onde passava e nada mais.
Eça nasceu nesses tempos.
E sendo como hoje todos sabemos ,alma sensivel há-de ter sido tocado pelo sofrimento que viu á sua volta e daí que quando cresceu e usando a boa sorte que o havia feito nascer em meio melhor e mais protegido, atirou-se á escrita e entre outras cousas admiráveis criou a personagem fradique mendes a quem deu a missão de cruelmente criticar e melhor se rir da tal gentinha que fina fazia o que queria e bem lhe apetecia das vidas de todos os outros, com o maior desprezo e ao que parece , também com o maior mau hálito que nisto de riquezas, se não se lavarem as gentes, o que fica é um terrivel mau cheiro e dizem as más línguas que á época, o pessoal fino era mais de substituir o banho pelos perfumes caros o que deixava nos ares a sua marca indelével.
Fradique ria-se disso.Ria-se disso e não só, ria-se de tudo.
Fradique , pode dizer-se, implantou na sociedade portuguesa um determinado tipo de riso cáustico e abençoado, o qual acabou por entrar na cultura popular e que hoje serve de suporte ás nossas melhores gargalhadas que continuam e graças por tal benção , capazes de atacar os pontos mais fracos daqueles que armados em aristocratas tentam sempre dar uma de senhores poderosos.
Fradique foi a arma secreta exposta públicamente por alguém que nunca se conformou e que nunca teve medo.
E de facto chega até aos nossos dias impoluta, necessária, bem viva e sempre maravilhosa , porque nisto de gente a armar aos cucos e a finórios há sempre e por conseguinte armas como o riso são sempre necessárias e então quando o riso é deste calibre de inteligência mais ainda. Mas não criemos confusões.
A época em que vivemos já não é essa de uma monarquia egoísta e avelhantada. Agora estamos em democracia e essa expressão "relassa fraqueza" não serve a todos , mas apenas aos que tendo parado no tempo ficaram incapazes de compreender que tudo muda, que o povo cresce e a pouco e pouco se interessa pela instrução e que apesar das armas dos que defendem os interesses de que o povo desista, de que alunos deixem de ir ás escolas, de que esta nação deixe de ser vista como uma das mais belas promessas de futuro e que espreitam sempre o melhor lugar para a intriga esperando por meio de acções muito pouco próprias estender armadilhas aos que lhes combatem a astúcia; a situação mudou o povo mudou e essa mudança é imparável, pois é desses que fala Fradique e é desses que se ri Eça a bom rir e em boa companhia.
Portanto se estou de acordo com o amor de pacheco pereira por fradique mendes , já não estou nada de acordo com a volta que ele pretende dar ás palavras de fradique mendes.
Na verdade Eça nunca escreveu uma linha que fosse contra o sonho e a capacidade de sonhar.Nem fradique mendes se riu uma vez sequer dos que sonham, riu-se outrossim dos que não sonham e dos que não querem dar espaço aos sonhos dos outros.Riu-se dos que tentam impedir que outros tenham a liberdade de perseguir a sua própria felicidade,riu-se dos que usando de prerrogativas e privilégios escravisaram outros, riu-se de uma nobreza decadente e de uma monarquia empestada pelo cheiro do seu próprio egoísmo .
E vivesse Eça nos tempos em que hoje vivemos e continuaria a rir-se.
O que afinal acontece porque Eça continua vivo e nós continuamos a rir com ele. E existe uma colossal diferença hoje em dia.
A de que pode o povo rir-se também e rir-se em maior número, porque hoje há mais povo a saber ler , há mais povo a querer aprender a ler , há mais povo e pensar melhor , há mais povo a desejar mais e melhor e há mais inteligência e mais sentido de humor do que pode a vã querença dos que apenas pensam em si próprios , no seu bem estar e no bem estar dos que protegem. E este tempo não vai parar no tempo.
Portanto e para finalizar , até gosto de ler pacheco pereira;-gosto imensamente mais de ler o Eça- mas em matéria da tal "relassa fraqueza" melhor será guardá-la para os que nunca foram capazes da força suficiente para abandonar as velhas e inúteis roupagens de serôdia paixão pelo passado. E é apenas desses que se ri fradique mendes e foi por esses , para apontar esses ao ridiculo, que se decidiu o nosso Eça pela ficção que como sempre, sempre ultrapassou a realidade.
José Pacheco Pereira
Público, 20090829
Se não houvesse a regra da "relassa fraqueza", teria que se tirar a conclusão óbvia de que tinha que ter havido incúria
José Maria de Eça de Queirós nasceu em Novembro de 1845, numa casa da Praça do Almada na Póvoa de Varzim, no centro da cidade; foi baptizado na Igreja Matriz de Vila do Conde. Filho de José Maria Teixeira de Queirós, nascido no Rio de Janeiro em 1820, e de Carolina Augusta Pereira d'Eça, nascida em Monção em 1826[2]. O pai de Eça de Queirós, magistrado e par do reino, convivia regularmente com Camilo Castelo Branco, quando este vinha à Póvoa para se divertir no Largo do Café Chinês.
Foi também o autor da Correspondência de Fradique Mendes e A Capital, obra cuja elaboração foi concluída pelo filho e publicada, postumamente, em 1925. Fradique Mendes, aventureiro fictício imaginado por Eça e Ramalho Ortigão, aparece também no Mistério da Estrada de Sintra.
Já citei mais de uma vez uma das cartas ficcionais de Fradique Mendes a Madame de Jouarre, em que este descreve a sua chegada de comboio a Lisboa. A carta é uma cruel metáfora sobre Portugal, das mais cruéis e desapiedadas que conheço, e mortiferamente verdadeira. Nela cabe da pior maneira a indústria do "sonho", da "esperança" do "optimismo", com que uns se pretendem distinguir dos outros como sendo melhores. Eles "sonham", os outros não.
Essa espécie de oração sobre a "esperança" e o "sonho" tem outras variantes, como seja: "temos que acreditar em nós próprios", "somos capazes", "os portugueses só sabem dizer mal de si próprios diferentemente dos outros povos que nunca o fazem" (quem diz isto não sabe nada dos "outros povos"), "não se pode só dizer mal", etc., etc.